Apontamentos para o Estudo da Moeda Sueva

Numária Hispano-Romana, Sueva, Visigoda e Muçulmana
Visigodo
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Apontamentos para o Estudo da Moeda Sueva

Mensagem por Visigodo » 16 nov 08 17:37:53

A PROPÓSITO DE UM SOLIDUS DE HONÓRIO, ACHADO EM CACIA, NO SÍTIO DA TORRE, NOS ANOS TRINTA DO SÉCULO PASSADO E DO QUAL DEU NOTÍCIA JOÃO SARABANDO NA PUBLICAÇÃO DA JUNTA DISTRITAL DE AVEIRO “ AVEIRO E O SEU DISTRITO”, NÚMERO 21, 1976.

A moeda peninsular dos Séculos V e VI, imitações dos povos bárbaros e/ou das comunidades provinciais, será sempre a parte mais tenebrosa da numismática medieval, tanto no que diz respeito à cronologia como à atribuição. (A. Engel e R. Serrure, citados por Mário Gomes Marques). A preferência dos imitadores tanto dos povos bárbaros como das comunidades provinciais foi sempre pelas espécies áureas. Este facto é o aspecto que mais transparece na história monetária do ocidente europeu nestes dois séculos. As emissões em prata cunhadas por ordem de Requiário assim como de monarcas francos terão tido muito provavelmente fins comemorativos tendo sido o seu papel económico quase nulo. ( Crusafont i Sabater, M. El sistema monetário visigodo: Cobre y oro, Barcelona-Madrid, 1984).
Em “ A moeda sueva-Porto 1977, Peixoto Cabral e Metcalf”, afirmam não ter dúvidas quanto à atribuição aos suevos das imitações de Honório, isto no que diz respeito à série pesada (moedas com maior peso), e declararam-se “inclinados” para lhes atribuir as restantes. Esta opinião assenta no facto de a grande maioria das moedas conhecidas pertencer a colecções portuguesas, presumivelmente formadas com achados no território nacional, no entanto só sabemos a proveniência de seis destes exemplares: Coimbra, Castelo Branco, Covilhã, Portalegre, Badajoz e Cacia-Aveiro, precisamente localidades fora da área nuclear sueva, só transitoriamente dominadas pelos suevos.
Peixoto Cabral e Metcalf conscientes deste facto levantaram a hipótese de que pelo menos algumas emissões terão sido cunhadas em Sevilha. Mário Gomes Marques adianta a alternativa de Mérida como centro de cunhagem, de facto esta alternativa está mais de acordo com a localização das localidades de proveniência. Segundo o mesmo autor os suevos dispuseram de facto de condições para a produção de imitações de solidi de Honório e que no caso de o terem feito entre 439 e 456, o centro de cunhagem mais provável terá sido Mérida, refere no entanto não existir qualquer prova de que assim tenha sido.
A única certeza quanto a este solidus da Torre é que estamos de facto perante uma imitação servil de um solidus imperial de Honório.

ImagemImagem

“ Estamos a lidar com material em que não existe uma linha divisória nítida entre facto e ficção.”
W. J. Tomasini.

Não é para já minha intenção alargar-me em conjecturas no âmbito da história monetária dos séculos V e VI. É sim minha intenção relembrar este achado como contributo para a história do distrito de Aveiro.


António Diogo
FELICITAS PERPETVA SAECVLI

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Re: Apontamento para o estudo da moeda sueva

Mensagem por Visigodo » 20 nov 08 14:50:33

Imagem

Espero que gostem! 8)

Um abraço.
António Diogo
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Re: Apontamento para o estudo da moeda sueva

Mensagem por Visigodo » 21 nov 08 16:34:13

:)
Este tremissis é património do Gabinete de Numismática da Câmara Municipal do Porto. Importa referir que a impressão no folheto informativo do Gabinete reproduziu primeiramente o reverso e seguidamente o anverso. Em segundo lugar e como podem ver pela legenda, este tremissis está classificado como pertencendo à série LATINA MVNITA o que considero incorrecto uma vez que não é isso que consigo ler na legenda do anverso, eis o que consigo ler no anverso: DIIVINIIIANTINIIIVponta de lançaNNVG, o que me leva a classificá-la como fazendo parte do tipo II de Reinhart, tipo em que o nome de Valentiniano ainda que muito deturpado, se consegue identificar. :twisted: 8)

Qual a legenda que o gravador pretendeu reproduzir no anverso deste tremissis?

Um abraço.
António Diogo
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Re: Apontamento para o estudo da moeda sueva

Mensagem por JCunha » 21 nov 08 18:37:26

Visigodo Escreveu::)


Qual a legenda que o gravador pretendeu reproduzir no anverso deste tremissis?

CONOB?

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Re: Apontamento para o estudo da moeda sueva

Mensagem por Avelino Nascimento » 21 nov 08 21:03:40

Eu suponho que o gravador bárbaro teve intenção de gravar no cunho, precisamente: D N VALENTINIANVS P F AVG, referindo-se ao Valentiniano III.
Terá sido?

Um forte abraço,
Cumprimentos,
Avelino Nascimento

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Re: Apontamento para o estudo da moeda sueva

Mensagem por JCunha » 21 nov 08 21:14:56

Para variar eu estava distraido, li reverso e era anverso :oops: :oops: :mrgreen:

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Re: Apontamento para o estudo da moeda sueva

Mensagem por Visigodo » 22 nov 08 10:06:39

:)
Ora aí está, com os contributos dos amigos, temos:
ANV: DN VALENTINIANVS PF AVG ou DN VALENTINIANVS AVG
REV: Cruz dentro de laurel com painéis laterais, no exergo: COMOB

Podemos adiantar, mais que isto é especulativo, que estes tremisses com o nome de Valentiniano, o III :wink: (425-55), foram cunhados depois de 426, ano em que adopta o tipo cruz dentro de laurel, e quase seguramente antes de Leovigildo ter anexado o reino suevo em 585, certamente que Leovigildo não consentiria a emissão de outras moedas que não as suas.
Assim que tiver oportunidade aqui deixarei um tremissis com o nome de Valentiniano sem erros na legenda e com um razoável trabalho de gravação para que vejam as diferenças.

Um abraço.
António Diogo
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Re: Apontamento para o estudo da moeda sueva

Mensagem por JCardoso » 30 nov 08 19:24:22

Para continuar com o estudo aqui vai :)

Este é um soldo M D que vai a leilão brevemente
Imagem
São cunhagens extremamente perfeitas.

A colecção de Carlos Costa possuia três moedas de ouro Suevas
1 Soldo em nome de Honório (03.02AG) e 2 trientes em nome de Valentiniano III (02.01;02.04AG)

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Re: Apontamento para o estudo da moeda sueva

Mensagem por Visigodo » 01 dez 08 12:44:51

:)
Solidus em nome de Honório que na actualidade admitimos ter sido produzido na Península Ibérica. Pelo que me é dado perceber pertencerá ao grupo A de Reinhart, grupo em que o autor inclui os espécimes que copiam com relativa fidelidade os modelos oficiais (imperiais) e em que as letras M e D são claramente identificáveis no campo do reverso, tece ainda considerações quanto aos eixos entre estas imitações e os solidi da casa de Milão.

Estas imitações ir-se-ão deturpando nomeadamente no tratamento das figuras, erros nas legendas, muitas vezes ininteligíveis, nalguns casos desparece o indicativo de origem que se pretendia reproduzir.

ANV: D N HONORI-VS P F AVG
REV: VICTORI-A AVGGG; no exergo COMOB, M e D no campo.

Um abraço.
António Diogo
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Re: Apontamento para o Estudo da Moeda Sueva

Mensagem por Avelino Nascimento » 01 dez 08 13:08:37

Exergo: COMOB = Comitatenses Obryzum

COMOB, textualmente "moeda de ouro puro cunhada no reino", é uma expressão que poderiamos interpretar simplesmente como "moeda pública".
Não se trata propriamente de um acrónimo da cidade ou da oficina de origem.
No solidus em questão, a cidade, julga-se que seja o conjunto das letra M e D de MeDiolanum (Milão) no campo da moeda e, creio eu, não se trata de uma imitação "bárbara".
"Bárbara" entre aspras, porquê?
Quando se fala em Bárbaros, no nosso português actual, fala-se em selvajaria, em gente má, em brutalidade, em desumanidade, o que é mal entendido quando aqui se fala em Bárbaros.
Os Bárbaros para os romanos eram os povos estrangeiros, os que não eram romanos, os que viviam para lá das suas fronteiras imperiais de Roma, em suma, os estrangeiros. Muita gente confunde isto.

Bom feriado,
Cumprimentos,
Avelino Nascimento

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Re: Apontamento para o Estudo da Moeda Sueva

Mensagem por Visigodo » 03 dez 08 10:34:06

:)
Avelino, o solidus em análise e como disse o amigo Jorge, vai a leilão ou já foi, não tenho presente a data, e vê só que os especilaistas dizem que se trata de uma emissão presumivelmente batida em Bracara! :roll:
Uma coisa te garanto eu que não sou especialista, não há certezas absolutas, não se trata de uma emissão oficial, a reprodução é sim «muito» fidedigna. :wink:

Um abraço.
António Diogo
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Re: Apontamento para o Estudo da Moeda Sueva

Mensagem por Avelino Nascimento » 03 dez 08 11:16:13

Parece-me mais uma cópia moderna!!! :D :mrgreen:

Imagem

Imagem
(MadebyTesorillo)

Um forte abraço,
Cumprimentos,
Avelino Nascimento

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Re: Apontamento para o Estudo da Moeda Sueva

Mensagem por Visigodo » 03 dez 08 15:32:03

:)
Qual delas?
António Diogo
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Re: Apontamento para o Estudo da Moeda Sueva

Mensagem por Avelino Nascimento » 03 dez 08 20:40:45

A do Tesorillo!!! :hahaha: :hahaha:
Cumprimentos,
Avelino Nascimento

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Re: Apontamento para o Estudo da Moeda Sueva

Mensagem por Visigodo » 13 dez 08 16:43:36

Imagem

Caros amigos e companheiros aqui deixo estas duas que um amigo me enviou, são ambas da Ex. Colecção Carlos Costa, actualmente da Colecção do BES. Não vou tecer, para já, mais comentários, faço votos para que apreciem e comentem, quanto mais não seja deixar aqui as vossas questões, obrigado.

Um abraço.
António Diogo
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Re: Apontamento para o Estudo da Moeda Sueva

Mensagem por Visigodo » 17 dez 08 18:47:10

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Um abraço
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Re: Apontamento para o Estudo da Moeda Sueva

Mensagem por Visigodo » 18 dez 08 22:36:38

:)
Na penúltima intervenção, lembram-se? Pois bem, ficaram dois espécimes:

- O 1.º, um solidus, um soldo (que calafrio!), em nome de Honório, não se trata de nenhuma imitação recente! :wink:
- O 2.º, um tremissis, em nome de Valentiniano III, também não estamos perante uma cópia moderna!

Então quando? E quem terá ordenado a cunhagem destas moedas? :zzz:


Ex.mo Senhor
Ricardo Espírito Santo Salgado

Rogo e peço autorização ao Banco Espírito Santo, na sua pessoa, autorização para a publicação no Fórum dos Numismatas de fotografias do Catálogo BES. A reprodução das mesmas destinam-se única e exclusivamente ao estudo da numária do território hoje Portugal.

Por minha honra e compromisso, um português agradecido,
António Diogo.
António Diogo
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Re: Apontamento para o Estudo da Moeda Sueva

Mensagem por Avelino Nascimento » 18 dez 08 23:10:35

Olá Diogo :)

Sim, as ultimas duas fotos, a do solidus em nome de Honório e do tremissis em nome de Valentiniano III, ambas, não se tratam de nenhumas imitações recentes, sem qualquer dúvida!
O solidus que foi a leilão na numisma, é que é meio esquisito ou melhor, tem uma "caligrafia" muito perfeita, para o meu gosto, na legenda mas... quem sou eu para o dize-lo!!

Um forte abraço,
Cumprimentos,
Avelino Nascimento

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Re: Apontamentos para o Estudo da Moeda Sueva

Mensagem por Visigodo » 20 dez 08 19:08:43

:)

Um breve resumo da históra dos Suevos:

Antigo povo germânico, constituído por várias tribos nómadas (Sémnones, Hermúnduros, Quados, Marcomanos...). Sabemos que originalmente se estabelecem na bacia do Elba (actuais República Checa, Eslováquia, Alemanha). Em meados do Séc. I a. C. encontram-se já na bacia do Reno (actuais Suiça, França, Alemanha, Países Baixos). Um dos seus ramos, comandado por Ariovisto, tentou estabelecer-se na Gália, mas foi expulso por César em 58 a. C. Acabam por se instalar na Suábia (região entre o Reno e o Danúbio), que partilharam com os Alamanos a partir do Séc. III. Posteriormente o seu destino pode ser observado ao seguir-se o trajecto de cada tribo. Interessam-nos particularmente os Quados, que após atravessarem o Reno, em 406, cruzaram a Gália e penetraram na Península Ibérica, em 409, e dirigidos por Hermigário (409-441), fundaram na Galécia o reino dos Suevos (411), com capital em Braga. Após a sua constituição como reino, os suevos vão firmando alianças com Visigodos e Romanos ou lutando contra ambos ao mesmo tempo. Hermigário e os seus sucessores, Réquila (441-448) e Requiário (448-456), (conhecemos três siliquae em seu nome : ANV: DN HONORI-VS PF AVG / REV: IVSSV RICHIARI REGES; um exemplar na Bibliothèque Nationale de Paris, um outro proveniente do Castro de Lanhoso, e o terceiro proveniente de escavações arqueológicas realizadas na Casa do Infante, da cidade do Porto), prosseguiram a expansão sueva para o NO da Hispânia, expansão que foi detida pelo visigodo Teodomiro II, em 456. ( Continua)

Um abraço.
António Diogo
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Re: Apontamento para o Estudo da Moeda Sueva

Mensagem por Visigodo » 21 dez 08 16:20:18

:)

Com a morte de Requiário (456) tiveram lugar lutas civis que só terminam com Remismundo (460-469), após ter sido reconhecido pela corte visigoda de Tolosa, com quem estabelece um tratado (464). Assistimos a partir de 469 e até 558 a um período de trevas, o reino suevo renasce com Teodomiro (559-570), que com a colaboração de S. Martinho de Dume, converte os Suevos ao catolicismo. Miro (570-583), Eborico (583-584) e Andeca (584-585), prefiro a grafia Audeca, (alguns autores atribuem um tremissis a Audeca, posteriormente falaremos também deste espécime) lutam todos contra Leovigildo, que acabou com o reino dos Suevos e o torna em mais uma província da Hispânia Visigoda Unificada.

Um abraço.
António Diogo
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