CUNHA, José Gerson

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CUNHA, José Gerson

Mensagem por Bandadolopes » 08 jun 11 1:30:49

Cunha, José Gerson


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José Gerson da Cunha nasceu em Goa a 2 de Fevereiro de 1844. É filho de Francisco Caetano da Cunha e de D. Leopoldina Maria Gonçalves, descendente duma antiga família de brâmanes estabelecida naquela cidade nos primeiros tempos do domínio português.

Seguiu em Goa os primeiros estudos, e passou depois a Bombaim, onde concluiu o curso de matemática e ciências naturais. Indo para Inglaterra doutorou‑se em medicina. Regressando a Bombaim dedicou‑se ao estudo das línguas europeias e orientais, e exerceu clínica em alta escala. Tem vivido sempre em Bombaim e em Inglaterra, é licenciado em obstetrícia pela escola médico-cirúrgica de Edimburgo, membro de muitas sociedades científicas de diversas nações, sócio da Academia Real das Ciências de Lisboa etc.

Tem publicado em Bombaim bastantes trabalhos, escritos em inglês, entre os quais se contam: Catalogue of the coins in the numismatic cabinet, 4 fascículos, Bombaim, 1880‑1889; Contributions to the study of Indo-portuguese numismatics, Bombay, 1880


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The Barrow Medical Journal, 15.Set.1900


A obra:

- Catalogue of the coins in the numismatic cabinet, Bombaim, 1880‑1889
- Contributions to the study of Indo-Portuguese numismatics. Thacker & Co.. 1883. (*)
- Indo-Portuguese Numismatics. Agencia Geral do Ultramar. 1956.


(*) Traduzido para português por Luis Pinto Garcia.


Cumprimentos,

Alberto Praça

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Re: CUNHA, José Gerson

Mensagem por Destrans » 08 jun 11 10:17:08

Muito divulgado este livro e com várias edições

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Re: CUNHA, José Gerson

Mensagem por Destrans » 08 jun 11 10:34:09

E Gerson da Cunha?52 As suas viagens frequentes à Europa, a sua participação em congressos internacionais, as sucessivas visitas às exposições de Paris, a venda da sua colecção numismática numa leiloeira londrina, a aprendizagem da electroterapia num estágio de medicina em Paris no hospital dirigido por Jean-Martin Charcot, ou a conferência que proferiu sobre Dante, em Bombaim, exemplificam um percurso feito de referências intelectuais e culturais não apenas europeias ou indianas, mas provenientes de várias Europas e de várias Índias. Mas, mais do que determinada por uma forma de estar ou de viajar, a fluidez da sua identidade foi marcada por diversos tipos de negação. Ser goês, sem viver em Goa; viver em Bombaim, sem ser britânico nem anglo-indiano; ir à Europa mas
não ir a Portugal. Todas estas negações atribuíram-lhe o poder de não estar no lugar do colonizado.

O seu deslocamento, a sua dupla negação do espaço colonial, a sua diferença em relação a todos os contextos dominantes onde se
movia revelaram-se determinantes na sua posição enquanto indivíduo, na sua experiência de vida, como no lugar a partir do qual pôde escrever e produzir o seu próprio discurso. Foi precisamente esta mobilidade geográfica e identitária que permitiu a Gerson da Cunha produzir o conhecimento de uma Índia que estava para lá das historiografias nacionais, coloniais ou locais. Dominava a história como a historiografia indiana, portuguesa e britânica, cruzando a multiplicidade das suas referências num único texto. Lia português, inglês e várias outras línguas europeias, tal como indianas.

Trabalhava nos arquivos de Goa e de Bombaim, tal como nos de Roma ou de Paris. Lia lápides em igrejas católicas, bem como inscrições sânscritas em templos hindus. Coleccionava objectos, sobretudo moedas, de várias Índias. Pertencia às mais prestigiadas instituições de saber da Índia Britânica, publicava em inglês nas
suas melhores revistas, mas também criticava o «egoísta John Bull» e acreditava que a libertação da Índia estava para breve.
Gerson da Cunha também não pode ser considerado uma voz subalterna, encarnando a subversão ao poder colonial ou a incapacidade de acesso ao discurso. Mesmo no meio das suas contradições identitárias, da sua voz pontual contra o governo inglês, ou das suas críticas mais escassas e indirectas em relação ao governo da Índia Portuguesa sua contemporânea, ou da sua crença na libertação próxima da Índia, Gerson da Cunha não era um anticolonialista.

As suas relações com os dois poderes coloniais que faziam parte da sua vida – o português e o britânico – não permitem colocá-lo de um ou do outro lado. Pelo contrário, tratava-se de relações mais subtis, e certamente mais complexas, feitas tanto de críticas como de elogios, de cumplicidades como de recusas, de lamentações e dúvidas como de proximidades. Será que as suas contradições, a sua encarnação simultânea de valores do «colonizador» e do «colonizado », entrarão em conflito com uma visão da história que não permite que se esteja dos dois lados? Não serão as mesmas contradições invisíveis a uma história de ideias claras, de dominadores e de subjugados, a uma história que não vê a violência do colonialismo ou a uma história que só vê a violência do colonialismo? Gerson da Cunha, como aliás muitas das personagens do seu círculo social e intelectual de Bombaim desafiam estas classificações: na sua múltipla identidade; na fluidez do seu percurso, geográfico como histórico; na sua capacidade para pôr em confronto (o que nem sempre significa conflito) diferentes culturas, histórias, vozes; no seu multiculturalismo intelectual, como nas suas muitas contradições; na escolha improvável das cidades europeias que percorreu; enfim, na dificuldade em classificá-lo.

Gerson da Cunha está muito longe de uma caracterização de «colonizado» como aquele que não tem voz, ou mesmo que é destituído «de escrita e de história» e se apropria «da linguagem e dos registos dos colonizadores a fim de propor outras histórias mais heterogéneas».53 Sendo goês, a linguagem dos colonizadores – ou seja, a cultura e a concepção de história europeias – fazia parte da sua cultura. Com a autoconsciência inerente aos processos de distinção, apresentava-se como um historiador «à europeia» e não «à indiana», como fez questão de deixar patente nalguns dos seus escritos históricos. No caso de Gerson da Cunha, não se pode dizer que exista uma apropriação, tal como é repetido vezes sem conta pela historiografia anglo-saxónica a propósito das elites indianas que viviam na Índia Britânica de Oitocentos. O facto de ele ser goês vem problematizar esta noção, constituindo-o num intermediário cultural, quer no seu percurso de vida, quer na sua abordagem histórica transtemporal e transnacional.
Outros Orientalismos: A Índia entre Florença e Bombaim, 1860-1900
Filipa Vicente

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