Béltran Villagrasa, "Problemas que plantean las monedas de la época hispano-goda y resolución de algunos de ellos", in III Congreso Arqueológico Nacional, Galicia, 1953, Zaragoza, 1955, deixou-nos a sua opinião acerca das legendas/palavras constantes dos
tremisses da série
latina munita. O seu trabalho foi ignorado pela maioria dos numismatas, felizmente alguns portugueses tais: Peixoto Cabral, Rodrigues Marinho, Mário Gomes Marques..., tiveram-no em devida e merecida conta. Villagrasa estava convicto que algumas dessas palavras só poderiam ser topónimos ou derivados dos mesmos e outras seriam certamente antropónimos, infelizmente não indicou quais seriam topónimos e quais seriam antropónimos.
Mário Gomes Marques (ob. cit., pp. 154 a 161), estudou com a preciosa ajuda de José Cardim Ribeiro, "Da existência de nomes pessoais em legendas de
tremisses da série
latina munita" constante da ob. cit. de M. G. Marques, os autores dão-nos matéria de estudo e debate concluindo J. C. Ribeiro e cito:
"Como vemos, neste campo abundam mais as hipóteses que as certezas. Todavia, e para lá da legítima discussão quanto aos prováveis ou possíveis contextos filológicos reflectidos pelos nomes em análise, importa antes destacar um facto incontornável: os nomes em causa são, na verdade, antropónimos, e não supostas formações de cariz directa ou indirectamente toponímico. E esta firme conclusão basta-nos, no âmbito específico do presente estudo".
De que legendas falamos? Pois bem deixo algumas conhecidas e estudadas pelos autores:
MVR(I)LLOIVLIMVNITA
SENAPRIATALASSIMV
LEIOIACOTISMVNITA / LEIO IACOTIS MVNITA
IACOTESMONETAPAX
LATINAGATTICMVNI
LATINAMVNITAGOTTI
LATINAMVNITAGATII
LATINAMVNITABENE
LATINAMONETAMVRES
LATINAEMERIMVNITA
LATINAMERIMVNITA
MVRELENSEMVNITA
LEONESMONETACLARA
BERGIDENSEMVNITA
MANITALAVRINTINA
MVNITAGALLICAPAX
IACOTESMONETAPAX
EMERI (gen.) - Cremos que a esta forma genitiva corresponderá o nominativo
Emerius. Tal antropónimo encontra-se documentado na
Hispania visigoda, designando um dos abbates que subscreve em 665, o IX concílio de Toledo... (J. C. Ribeiro, ob. cit.).
GAT(T)I GOT(T)I (gen.) - Existem, nas legendas monetárias que exibem estes elementos nominais, algumas variantes que nos impedem de obter totais certezas quanto aos antropónimos nelas registados. De uma análise dessas variantes deduzem-se, em alternativa, os genitivos
Gat(t)i e Got(t)i, que poderão corresponder, o primeiro, aos antropónimos
Catius, Catus, Cattus, Gattius ou
Gatus e , o segundo, a
Cottius ou Cottus... (J. C. Ribeiro, ob. cit.).
IACOTIS (gen.) - A forma Iacotis representará o genitivo
Iaco (cfr. Engel e Serrure, Traité de numismatique du moyen âge, vol. I, Paris, 1891). Assinale-se que a grafia
Iacotes, patente em algumas das legendas seriadas, não representa obviamente nenhum nominativo ou acusativo plural, mas tão só um siples genitivo singular, equivalente a
Iacotis... (J. C. Ribeiro, ob. cit.).
IVLI (GEN.) - Trata-se evidentemente, do vulgaríssimo gentilício
Iulius, aqui utilizado como simples nome único. É muito frequente na
Hispania romana... (J. C. Ribeiro, ob. cit.).
TALASSI (gen.) - Deste genitivo poderá deduzir-se o nominativo
Talassius. Tal nome, na sua forma não geminada
Talasius, está registado na
Hispania suevo-visigótica designando um bispo de Asturica, o qual, em 589, subscreve o III Concílio de Toledo (Garcia Moreno, "Prosopografia del Reino Visigodo de Toledo, Salamanca, 1987). Relacionável com o antropónimo em questão documenta-se ainda, neste mesmo contexto territorial e cronológico, o nome
Talasa, referente a uma
famola (sic)
Dei falecida em 594, com 44 anos, e cujo epitáfio foi achado em Silveirona, Estremoz... (J. C. Ribeiro, ob. cit.).
Faço votos para que desfrutem ao ler estes Apontamentos, no mínimo, tanto quanto eu desfrutei ao escrever e ao embrenhar-me na Idade das Trevas.
Um abraço.