Relativamente às emissões de reais de 3£ e meia em Lisboa, está hoje bastante claro na minha cabeça que os reais a que chamávamos "da rosa" são aqueles que nos registos quatrocentistas da Torre do Tombo foram epitetados de "Reais de 3£ e meia dos velhos". A lei indicada nesses fragmentos foi exactamente a que encontramos para esse grupo de reais, sendo a amostra relativamente grande e sendo de admitir que a lei de 34 grãos deverá corresponder aos que ostentam as rosetas no interior dos arcos que ladeiam a letra monetária e cruzetas a ladear a coroa. Sendo assim, para se perceber melhor, do que a ciência nos trouxe, está, na minha opinião, claro o seguinte:
Reais de três libras e meia "da rosa" - Lei de 3 dinheiros:
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Reais de três libras e meia "dos velhos"- Lei de um dinheiro e meio (36 grãos):

Estes reais de três libras e meia (que sempre vi endeusados em termos de valor) são vulgaríssimos, sendo na minha opinião os únicos reais de 3£ e meia (brancos) que se podem considerar comuns. Para mais, aparecem vulgarmente em bom estado de conservação.
Outro argumento que facilmente leva a crer que sejam estes "os velhos", se conseguirmos libertar a cabeça do preconceito das rosetas no interior dos arcos lobados que ladeiam a letra. Veja-se:

O artigo completo pode ser consultado aqui, a partir da página 203:
http://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/10821.pdf
Atentando apenas na amostra de peso para já reunida, que me parece ir na toada da amostra fotográfica, temos 28 reais compatíveis com a lei "dos velhos", ao passo que nas outras denominações, temos amostra perfeitamente insignificante, com máximo de 3 exemplares por tipo. Ora, estará claro que os reais a que chamávamos "da rosa", também pela sua muito maior ocorrência, naturalmente se associarão aqueles de que temos registo de maior quantidade de fabrico. E contra tudo isto junto, pode haver opiniões, mas têm que se basear em mais que numa mera nomeclatura, de si já duvidosa em face da verificação de meras rosetas, sem âmago as mais das vezes (rosa?).
Reais de três libras e meia da lei de 34 grãos (os descobertos por Pimenta Ferro nos registos quatrocentistas):

Se a própria lógica de apôr sinais ocultos, nas emissões subsequentes a um tipo sem sinais ocultos, não chegasse para ver nestes reais (que apenas se distinguem "dos velhos" pela adição de cruzetas a ladear a coroa) os sucessores dos velhos; o facto de para os primeiros termos obtido valores de cerca de 12,5% de prata, acusando estes últimos apenas 11,5% de prata, acaba por atestar a ligeira desvalorização. Sendo assim, contrariamente ao que, tanto Pimenta Ferro como Gomes Marques sugeriam, estes reais da lei de 34 grãos são perfeitamente distinguíveis dos "velhos".
Reais de três libras e meia da lei de 30 grãos:
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Reais de 3 libras e meia da lei de 24 grãos, denominados "dos segundos" (Lei de 1 dinheiro):

Estes serão os últimos reais de 3£ e meia, lavrados até 1407 e antes de 1415. Embora a moeda seja única na amostra, convirá esclarecer que foi sujeita a electrólise, pelo que os dados obtidos estarão mesmo muito perto da liga original. Veja-se ou não o sinal oculto à esquerda, em mão deixam de existir dúvidas. quer quanto a esse pormenor, quer quanto à letra monetária, que infelizmente foi "comida" por corrosão. Encontro referência, num documento de 1409, a uma moeda de real de três e meia "que ora corre". Mas pelo facto de correr em 1409, não quer dizer que se lavre, apenas que necessariamente ainda não teria sido recolhida ou desmonetizada. De resto, não há referências a lavramentos de reais de 3£ e meia após 1407. Para mais, tendo os primeiros meios reais cruzados sido produzidos na lei de um dinheiro, não podiam necessariamente ter-se batido reais de três e meia a seguir a 1407, pelo que este dado, por si, na minha opinião prova a interrupção do lavramento. É mais ou menos a ideia expressa também por Gomes Marques e já, antes dele, por Aragão e Pimenta Ferro:

Junte-se a isto tudo o aspecto mais tosco, a ausência das rosetas no interior dos arcos que ladeiam a letra monetária. Temos uma média bruta de 2,48g em três moedas - que é a que se arranja dada a escassez do tipo).
Sinal oculto à direita (lei de 2 dinheiros - 16% de prata):

Estes são uma absoluta novidade. A lei verificada é de 2 dinheiros. As fontes escritas são completamente omissas relativamente a esta lei, pelo que serão uma descoberta absoluta do ponto de vista da história monetária. Mais uma vez, dada a escassez do tipo, a amostra de liga e de peso (que coincide - 2moedas) é bastante reduzida. De qualquer modo aponta para uma média de peso (também não corrigida) de 1,62g. Ora, feitas as contas (por alto e sem os preciosismos das densidades - apenas para apontar um caminho de pensamento), 16% de prata em 1,62g são 0,26g de prata; ao passo que 7% de prata em 2,48g (tipo anterior) são 0,17g de prata. Pelo que estes reais, sem as rosetas no interior dos arcos que ladeiam a letra, e com sinal à direita (pese embora a reduzida amostra) terão que ser necessariamente anteriores aos que apresentam sinal à esquerda e lei próxima de um dinheiro. Não correspondem à lei de 30 grãos, pelo que destes devem ter sido uma valorização em liga, com subsequente desvalorização na talha, compondo uma emissão intermédia até agora desconhecida.
Depois vêm as complicações...
Esta:

Uma moeda, até ver única e não catalogada no Alberto Gomes, que o Rui teve a felicidade de adquirir e que será analisada na próxima ronda. É a minha melhor aposta para o real da rosa de 3 dinheiros. Tem uma rosa "bem mais rosa" que as rosetas de âmago geralmente vasado ou indefinido. Repare-se no separador da legenda. Tem pontos nos arcos que ladeiam a letra, característica que a torna inédita.
Esta:

Temos apenas este exemplar na média de pesos. Moeda escassa a rara, como quase todos os reais de três £ e meia de Lisboa. Apresenta também rosetas de âmago cheio nos separadores da legenda. Outro forte candidato, na minha opinião, a real da rosa. Mas não conseguimos para já ter acesso a nenhum exemplar, sendo que em fotos não conhecemos mais que dois exemplares (mais uma moeda aparentemente rara).
E esta:

Apenas temos dois exemplares na média de peso (mais uma amostra que não permite retirar mais que indícios). Não temos qualquer destas moedas para análise - outra rara. Dada a ausência de rosetas, que não as de âmago vasado no interior dos arcos que ladeiam a letra, dificilmente se conseguirá neste tipo uma aproximação iconográfica à rosa. Pelo que talvez sejam estes os reais da lei de 30 grãos.
Como andei de volta do sistema do meio real cruzado e do real de 3£ e meia, fica aqui o apontamento. Há-de-me servir como auxiliar de memória. De resto, aos interessados na temática de João I, fica como sempre o repto à discussão!