Assim todos podem ler sem estar a ler chinês.
Há algum tempo tive uma duvida quando lia o Ceitis.
Com as repostas que obtive queria fazer um apontamento para ajudar quem como eu não entendia do que falavam quando se referiam a "marco" e "grão"...
mas esse projecto não passou de um pequeno ficheiro .txt com a informação recolhida.
Na altura pedi ao Mário se podia usar os textos dele para tal, e obtive uma resposta positiva.
Penso que com os restantes participantes também não deve haver problema.
Deixo aqui a minha dúvida e as belas respotas que obtive.
Espero que ajude a complementar o trabalho.
in Magro.Francisco A.Costa,Ceitis,Instituto de Sintra,1986
pag.12
"...moedas de cobre de D. Duarte lavradas a 120 em marco..."
"...uma espécie mais leve, o real preto ou preto pequeno, provavelmente lavrado a 220 no marco."
pag.33
"...1.913g ou 120 moedas no marco de Lisboa."
"...estavam a ser cunhados 22 reais do marco de cobre."
pag.34
"...o ceitil passaria a ser talhado a 256 peças no marco (0,896g)."
Andei a dar uma vista d'olhos pelo Magro...
e não entendi a que é que se referem quando falam em "marco".
E também não achei uma relação directa entre os diferentes valores apresentados.
Pedia ajuda a algum dos entendidos para me exclarecer isto.
Obrigado.
Laulo
O Marco , como a Libra como o Soldo , era uma moeda de conta não eram moeda "per si" , e fazia parte da tabela
dos pesos usados para os metais preciosos até Afonso IV ????
No reinado de D. Manuel I , um marco era equivalente a 229, 500 gr. e entravam nele ....4608 grãos ,
cada grão (do tamanho de um bago de arroz , pequeno) pesava 0,0498 ou
mais correctamente 0,00004984 = a (+- 5 centigramas ).
Isto faz dar cabo da cabeça , é preciso algum tempo para se perceber , eu ainda ando às aranhas ,
nem sempre os metais preciosos com que se faziam as moedas , estavam ao mesmo valor , por isso era
rateado para que cada moeda tivesse menos metal precioso que entrava na liga.
Depois ainda vem a equivalência dos dinheiros (prata, em relação ao Marco ou à libra,
é um nunca mais acabar, muito confuso para mim.
MCarvalho
O Laulo explicou, mas se calhar com tabelas percebe-se ainda melhor.
O Marco é uma medida de peso, de certa forma, foi a medida mais usada do final da Idade Média até ao séc. XIX.
O Marco que nós usavamos cá em Portugal pesava 230,40 gramas.
O Marco dividia-se em 8 Onças, cada uma era igual a 28 gramas.
A Onça dividia-se em 8 Oitavas, cada Oitava era igual a 3 gramas.
A Oitava divia-se em dois Adarmes, cada Adarme era igual a 1 grama.
O Adarme dividia-se em 3 Tomins, cada Tomim era igual a 0,599 gramas.
O Tomim dividia-se em 12 Grãos, cada Grão era igual a 0,04992 (ou 0,05 para simplificar).
E agora para exemplificar: quando El-Rei D. Afonso V decreta que os Ceitis deverão ser talhados
em 256 peças no Marco, está a dar indicações para que cada 230,40 gramas de cobre dêem para fazer 256 Ceitis,
ou seja, cada Ceitil deverá ter à volta de 0,9 gramas (os tais 0,896 que nos fala o Capitão Francisco Magro).
Em termos reais, verificamos que o Ceitil de D. Afonso V pesa sempre mais um pouco, seria muito difícil
ou desnecessariamente trabalhoso aferir pesos tão ínfimos para uma moeda de cobre de baixo valor.
A Libra e o Soldo que o Laulo refere são mais antigos e aí sim, além de medidas de peso,
são também moedas de conta.
A Libra Medieval usada no nosso país era a Carolíngia, instituída no séc. VIII por Carlos Magno.
A Libra Carolíngia é uma herdeira "deturpada" da Libra Romana.
A Libra Romana pesava 327 Gramas
A Libra Carolíngia pesava 408 Gramas.
A Libra Carolíngia dividia-se em 20 Soldos, cada Soldo valia 12 Dinheiros.
Ou seja: 1 Soldo = 20,4 Gramas.
1 Dinheiro = 1,7 Gramas
Depois do século XIV, início do XV, deixou-se de falar-se em Libras, Soldos ou Dinheiros,
tanto como unidades de peso, como moedas (de conta ou efectivas).
Sabendo dominar estes pesos e medidas e sua relação com as moedas, conseguimos com
alguma precisão fazer o câmbio exacto entre 1 Euro dos nossos dias e um Asse Romano, por exemplo.
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Mário Carvalho
sotero
Há uns preciosismos que me causam confusão:
230.40/8=28.8 (vs 28)
28.8/8=3,6 (vs 3)
3.6/2=1,8 (vs 1)
1.8/3=0.6 (vs)
0.6/12=0.05 (vs 0,04992)
Em particular aqui:
MCarvalho Escreveu:
A Oitava (3 gramas) dividia-se em dois Adarmes, cada Adarme era igual a 1 grama.
Se fizermos ao contrário, pegando em 0.04992 por grão, chegamos a um marco com 230,03136g.
MCarvalho
Já sei qual foi o erro ao fazer as reduções. Parti de 230 gramas e não dos 230,4 do Marco Português
ou de Lisboa. E porquê? porque peguei o Folgosa para saber o valor exacto do Marco de Lisboa, mas
consultei o León Hernández Canut para ver os submúltiplos do Marco. É claro que Canut tem os valores
para o Marco Espanhol, que é exactamente os 230 gramas.
Em todo o caso, a proporção é a referida, temos é que fazer os respectivos ajustes que a diferença
de 40 gramas implica.
A título de curiosidade, o valor dos outros Marcos europeus:
Marco de Colónia (Bávaro) 233,9 g.
Marco Dinamarquês 225,2 g.
Marco Espanhol 230 g.
Marco Francês 244,7529 g.
Marco Holandês 247 g.
Marco Inglês (ou Troy) 373.242 g.
Marco de Milão, ou de Zeca 234,9 g.
Marco Norueguês 249,1 g.
Marco de Piemonte 245,9 g.
Marco Português ou de Lisboa 230,40 g.
Marco Prussiano 233,8 g.
Marco Veneziano 238,4 g.
Parece estranho cada cantinho da Europa ter o seu peso diferente, às vezes as diferenças eram grandes,
outras apenas subtis, mas não nos podemos esquecer que a globalização é um fenómeno diferente, as
próprias ferramentas para aferir pesos eram limitadas e mecânicas (não há cá balanças digitais) e
em termos práticos, ou seja, no dia-a-dia das pessoas, a diferença de 5 gramas aqui ou acolá não
era facilmente perceptível.





