Boas
Este estudo vem bem a propósito!

Eu tenho andado a estudar os Leais nos últimos meses e, apesar do estudo ainda não estar pronto para publicação, pois falta limar arestas e corrigir a parte formal, ficam aqui as ideias as ideias principais para discutir este assunto.
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Estudo Histórico e Comparativo da Tipologia dos Leais de D. Duarte
INTRODUÇÃO
Com este estudo pretendeu-se fazer uma análise crítica de um dos exemplares mais raros da numária portuguesa, o Leal de D. Duarte. Nesse sentido foi feita uma comparação tipológica entre o resto da sua numária, outros exemplares e documentos da mesma época. Fez-se também uma análise de estilo, da legenda e do escudo e uma abordagem histórica baseada em documentos de achados e nos livros dos grandes mestre da numismática nacional.
ANÁLISE TIPOLÓGICA
1 - A coroa é diferente de todas as outras moedas de D. Duarte e de qualquer reinado anterior. É também diferente de alguns selos de época, como pode ser observado nas imagens. O escudo apresenta um número de castelos inferior aos dez que podem ver vistos nos selos e tem um aspecto mais rudimentar.

Imagem do Leal da colecção BES
Imagens dos reais pretos da minha colecção pessoal
Imagens dos selos reais de Abril e Setembro de 1434, esboços de Sousa (1738) retiradas da monografia de José Pinto Casquilho - A Metamorfose das Armas do Rei de Portugal na Dinastia de Avis
2 - As legendas não têm lógica, o latim está errado:
Salmo: JESUS CHRISTUS SALVA NOS PER CRUCEM
Significado: JESUS CRISTO SALVOU-NOS PELA CRUZ
LISBOA:
Exemplar da colecção BES:
+ DOMINE :. EDVARDVS :. REX : PO :
+ CRISTES :. SALVA NOS :.+ CRVS
Exemplar da colecção MATOS:
+ DOMINE :. EDVARDVS : REX : PORT
+ CRISTES :. SALVANOS :. CRVS
Exemplar Forum Numismática:
http://www.forum-numismatica.com/viewto ... =3&t=16610" onclick="window.open(this.href);return false;
+ (...) EDVARDVS :. (...)
+ CRISTES :. (...) NOS :.+ CRVS
Análise:
1 - DOMINE está no vocativo o que não encaixa no resto da legenda que está no sujeito
2 - CRISTES – Sem H, com um S que não faz sentido nenhum em latim. Mesmo que fosse para ser CHRISTE corresponderia a “Ó Cristo” e seria uma forma estranha que não encaixa no resto do salmo.
3 - PER CRUCEM – A expressão PER CRUCEM a ser abreviada seria CRUX
PORTO:
Exemplar reproduzido por Batalha Reis:
+ DOMINI |: EDVARDI : REGIS PORIVG
+ CRUX : IhESV : CRISTI :SALVA NS
Análise:
- CRUX CHRISTI significa a cruz de Cristo, o que faz com que a única leitura possível do salmo seja qualquer coisa como A CRUZ DE JESUS CRISTO SALVA-NOS.
Assim sendo, parece-me que a visão religiosa não é a de que é a cruz de Cristo que nos salva, mas Cristo que nos salvou através da cruz. Tal imagem é uma das mais fortes e centrais do cristianismo .
- IhESV, apesar de aceitável, não é a forma normal de escrever o nome Jesus em Latim.
- CRISTI - Ainda que se aceite a ideia da cruz de Cristo, CHRISTI aparece sem “H” como deveria aparecer.
- PORIVG – PORTVG
- A forma verbal correcta seria SALVAT e não SALVA
- A forma REGIS implica posse e significa qualquer coisa como, “Do Rei”. Apesar de aceitável, está longe de ser a forma usada na numária da época e se por si só não levantaria grandes questões, no conjunto das discrepâncias, deve ser também considerada.
A meu ver, na legenda da moeda do Porto existiu uma tentativa, ainda que não totalmente conseguida, de corrigir os erros presentes nos exemplares de Lisboa, mas ainda que o latim se tenha aproximado de uma forma aceitável, o salmo encontra-se adulterado no seu sentido primordial.
De forma a confirmar a escrita da época foram analisados alguns documentos presentes nas Provas da História Genealógica da Casa Real Portuguesa. Foram encontradas as formas:
JEFU CHRIFTO – Página 515 do Tomo I – Doc. 40 “Contrato de Casamento de El Rey D. Duarte...”
JEFU CHRIFTO – Página 536 do Tomo I – Doc. 41 “Papel, que efcreveo ElRey D. Duarte...”
JEFUS CHRISTO – Página 481 do Tomo 3 - Doc. 12 “Carta delRey D.Duarte...”
Nos documentos analisados, que não estão em latim, não servindo por isso de prova cabal da forma de escrita em latim da altura, mas apenas de indicação de como se escreveria em português à época, os sons “S” estão normalmente escritos com a letra “F”, sendo que se aceitaria a escrita de JESU(S) CHRISTO. Mesmo assim esta última hipótese continua a diferir grandemente da escrita utilizada no nosso objecto de estudo, pois Cristo nunca aparece sem H.
No livro “Historia da Sociedade em Portugal no Séc. XV” de A. Costa Lobo de 1903 – Pág 306, pode ler-se uma reprodução de um texto de 1435 relativo à numária de D. Duarte no qual é novamente possível ler-se “JESUS CHRISTO”.
No “Livro das Horas de D. Duarte”, devido à dificuldade de leitura do exemplar no site da Biblioteca Nacional, não consegui encontrar as palavras “Jesus Cristo” no seu interior, mas é possível ler no resumo da obra a expressão “SPONSA CHRISTI” (A Noiva de Cristo), em que mais uma vez, e agora em latim, se prova a existência do “H” e que a forma usada nos Leais não era a utilizada à época.
A juntar aos erros de escrita existe também a utilização de separadores muito diferentes do habitual:
Em conclusão, se os factos analisados apenas existissem num exemplar poderiam entender-se como um erro na preparação do cunho, mas tendo em conta que todos os exemplares conhecidos os apresentam, parece-me lógico que terão existido erros crassos na concepção da legenda, não compatíveis com o que é visto nas outras legendas da época.
3 - As legendas dos exemplares que consegui analisar têm letras da legenda com formas duvidosas. Principalmente as formas dos A's, V's e dos L's não são da época, mas há imensas letras que têm formas duvidosas. Na figura seguinte estão assinalados alguns exemplos que me parecem ser um desvio em relação ao normal.

Canto superior esquerdo: Coleção José Matos - Comprovadamente falsa por repetição de cunho
Canto superior direito: Apresentado no Forum de Numismática (
http://www.forum-numismatica.com/viewto ... =3&t=16610" onclick="window.open(this.href);return false;) – Foto desfocada não permite grande avaliação, mas aparenta um estilo muito tosco.
Canto inferior esquerdo: Desenho do espécime do Porto por Batalha Reis – Separadores estranhos, letras muito duvidosas. Estilo do escudo mais limpo, talvez por ser mais recente que todas as outras.
Canto inferior direito: Coleção BES – Letras erradas e separador em forma de cruz de abertura, textura estranha. -
NOTA: ESTE EXEMPLAR NÃO É O DO BES - foto retirada de forum-numismática.
4 - Dois dos tipos catalogados têm os escudetes pós reforma de João II e têm uma linha mais grossa e um escudos tosco sem a leveza dos Leais de Afonso V.

AG 05.03 - retirado do “Forum de Numismática”
http://forum-numismatica.com/viewtopic.php?f=3&t=105561" onclick="window.open(this.href);return false;

AG 05.04 - Fotografia da pág 125 do livro "Moedas Portuguesas e do Território que hoje é Portugal 2013 - Alberto Gomes"
ANÁLISE HISTÓRICA
1 - Em 1856 Manuel Lopes Fernandes diz “Como os não conhecemos os não podemos descrever.” (Memória das moedas correntes em Portugal desde o tempo dos romanos, até o anno de 1856 – Pág 79) o que indicia que nenhum exemplar existiria por esta altura, conhecendo-se apenas os documentos descritivos da sua cunhagem.
2 – Em 1875 Teixeira de Aragão afirma ter visto apenas uma partida ao meio e em sofrível conservação (Descrição geral e histórica da moedas cunhadas em nome dos reis, regentes e governadores de Portugal – Pág 219) sendo que depois apresenta um desenho de uma moeda inteira, de legenda quase completa e com um escudo tosco. (Descrição geral e histórica da moedas cunhadas em nome dos reis, regentes e governadores de Portugal – Pág 489)
Porque cataloga ele uma moeda diferente da que viu e analisou? Onde está esse exemplar partido?
3 - Falta de evidência de uma descoberta de um Leal de Lisboa em achado documentado. Os poucos que encontrei com moedas de D. Duarte apenas tinham reais pretos e pretos pequenos.
Foram analisados os achados descritos no forum “NUMISMATAS”, na revista "NVMMUS", nos dois primeiros anos da revista "Archeologo Português" e no estudo de Dhénin e Duplessy sobre os achados de moeda portuguesa em França publicados nas actas do I congresso Luso-Brasileiro de Numismática. V Congresso Nacional – La circulation des monnaies portugaises en France d'aprés les trésors (XIV – XVIII s.)
Existe documentado e acessível também no forum "NUMISMATAS" a análise de Pedro Batalha Reis ao único espécime conhecido cunhado no Porto dado a conhecer apenas em 1946.


Artigo de Pedro Batalha Reis in Jornal de Notícas, 8-XI-1946 - Retirado de
http://www.numismatas.com/phpBB3/viewto ... 21&t=19819" onclick="window.open(this.href);return false;
Depois da leitura do recorte do jornal pode facilmente comprovar-se que o achado entra directamente para o Top 3 das fábulas numismáticas nacionais e não serve de modo algum como prova de achamento. Por outro lado a análise de Pedro Batalha Reis terá sido, no mínimo, descuidada, pois nem a legenda bate com o desenho que o mesmo apresenta!! A meu ver uma moeda única talvez necessitasse uma avaliação mais séria.
Pelo que é dado a ler por esta altura já se conheciam 3 a 4 exemplares de Lisboa, sobre os quais não há, ou pelo menos não encontrei, informação alguma.
4 - Parecença enormíssima entre as imagens do Escudo de Ouro e o Leal dando a entender que ambos terão sido criados com base na gravura setecentista presente na "História Genealógica da Casa real Portugueza" de D. António Caetano. Inclusive são as duas únicas moedas conhecidas com aquele salmo e com os mesmos erros na legenda o que indicia a imagem terá sido usada como base para criar o Leal. As duas moedas são também tipologicamente similares e distinguem-se dos reais pela forma da coroa que não tem paralelismo em nenhuma outra do reinado de D. Duarte, D. João I ou D. Fernando.

Gravura de Teixeira de Aragão e exemplar pertencente à colecção BES.
Mário Gomes Marques no seu estudo sobre algumas falsificações de Barbudas de D. Fernando (An Interesting Forgery: The Round visor Barbuda) aflora também a existência de uma falsificação do Escudo de Ouro de D. Duarte, baseada na representação contida na História Genealógica da Casa Real Portugueza de D. António Caetano. No mesmo estudo põe também em causa o desenho de Aragão presente no seu livro, Descrição geral e histórica da moedas cunhadas em nome dos reis, regentes e governadores de Portugal, pois este terá alterado a posição dos escudetes em relação ao original sem fazer menção ao facto ou dar qualquer explicação. Este facto foi confirmado por mim levando-me a crer que terá nesse momento criado condições para a invenção do Leal como o conhecemos.
No estudo em causa prova-se que o exemplar do escudo de ouro em estudo é falso (era de prata!) e lança-se a hipótese de todos os exemplares em estudo terem sido feitos pelo mesmo indivíduo ou grupo de indivíduos.
A data de venda e aparecimentos do exemplar falso do escudo de ouro (1872), coincide razoavelmente com o aparecimento das primeiras imagens de Leais apresentadas por Aragão, lançando a hipótese de que também estes venham da mesma fornada. Por outro lado, a leveza com que o mestre tratou estes exemplares de D. Duarte faz com que a sua análise não deva ser tida em conta sobre esta matéria.
CONCLUSÕES
Todos os exemplares de Leais de D. Duarte apresentam erros na tipologia da coroa e do escudo, assim como uma legenda incompreensível e com caracteres desajustados. Ao nível dos relatos históricos não há evidência alguma de aparecimento destas moedas em achados documentados, sendo que estas moedas não eram conhecidas antes da segunda metade do Séc. XIX. O aparecimento dos Leais dá-se pela mesma altura em que aparece uma falsificação do Escudo de Ouro e ambas as moedas aparecem representadas pela primeira vez em Aragão.
Em conclusão, e somando todos este argumentos, a minha tese é a de que os Leais de D. Duarte, como os conhecemos, nunca existiram e são uma invenção da segunda metade do séc XIX reproduzida e copiada através do Séc XX. A suposta moeda terá sido idealizada a partir de um Leal de Afonso V e baseada na estampa setecentista do escudo de Ouro. A moeda original ter-se-á perdido no tempo tal como o escudo de ouro.
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Apresentada a tese espero que façam uma análise crítica e ponderada destes argumentos e que tirem as vossas conclusões para desmistificarmos em conjunto o que penso ser um logro com mais de cem anos.
No sentido de poder refutar ou comprovar definitivamente esta teoria pedia a vossa ajuda para:
1- Juntar outras imagens de Leais.
2- Apresentar algum documento que prove a descoberta de algum exemplar verdadeiro e que explique as circunstâncias em que tal aconteceu.
Obrigado a todos
Os melhores cumprimentos
Pedro Borrata