Guia Prático para a leitura de Dinheiros Velhos

Numária cunhada desde D. Afonso Henriques até D. Pedro, o Prí­ncipe Regente.
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Rui
Flor de Cunho
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Guia Prático para a leitura de Dinheiros Velhos

Mensagem por Rui » 27 jan 15 2:08:18

Sendo bem recebido o guia para a leitura dinheiros novos, pareceu-nos justo não descurar também os dinheiros velhos. Embora seja tarefa árdua de explicar por palavras a panóplia de algoritmos usados na leitura destas difíceis moedas, rascunham-se aqui algumas ideias, baseadas em técnicas pessoais, desenvolvidas ao longo dos anos. Nestes dinheiros, mais complexos de ler comparativamente aos dinheiros novos, convém praticar-se exaustivamente, as letras e legendas não são uniformes, como no caso dos dinheiros novos.
Pretende-se mais uma vez que este trabalho seja de simples leitura e profusamente ilustrado, para que assim seja, foram usados, para além de imagens, desenhos do Livro das Moedas de Portugal de Joaquim Ferraro Vaz.

1- Brevíssima noção teórica:

- Consideramos os dinheiros velhos comos os emitidos antes do saneamento de Afonso III, efectuado em 1260. Estas emissões, cobrem os seguintes reinados:

D. Afonso I
D. Sancho I
D. Afonso II
D. Sancho II

2- D. Afonso I ( O Fundador):

Embora sejam conhecidos 5 tipos distintos para as emissões atribuídas ao reinado de D. Afonso Henriques, para efeitos práticos apenas iremos considerar os dinheiros erradamente designados por "Báculos", que passaremos a designar por dinheiros de "Árvore Crucífera", iremos também abordar os dinheiros conhecidos como "Pentalfas".
São dinheiros extremamente complexos de analisar, mesmo os coleccionadores e vendedores mais experientes, cometem imensas falhas na leitura destes fantásticos dinheiros. A proliferação de algumas falsificações e restauros de gosto duvidoso, principalmente na série dos pentalfas, tem ajudado a baralhar os coleccionadores.

Dinheiros de Árvore Crucífera

Esta emissão divide-se em dois grandes sub-grupos, dependentes da lei da moeda, uma ainda de bom bolhão e outras já bastante pobres, com baixa permilagem de prata.
Para efeitos de leitura, iremos considerar o anverso como a face que apresenta a simbologia da árvore crucífera, enquanto o reverso será a face que apresenta a cruz equilateral.
No anverso devemos colocar o tronco da árvore na vertical, com a cruz directamente por cima, a legenda começa normalmente, mas não sempre, entre as 11h e as 13h, sendo as variantes seguintes as mais comuns:
REX ALFOS
ALFOS REX
ANFO REX
PORTVGA
PORTVG

Relativamente ao reverso, é extremamente difícil explicar por palavras a técnica exacta. Deve fazer-se primeiro a identificação dos caracteres que compõem a legenda. Delinear a sua leitura e posteriormente enquadrar o ínicio da legenda que será o início mais próximo de um dos braços da cruz que se desfasam uns dos outros em ângulos de 90º. As principais variantes de legenda para os reversos são do tipo:
PORTVGA
ALFOS REX
REX ALFOS
ANFOS REX

Alguns exemplos práticos:
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Dinheiros com pentalfa no anverso

Contrariamente ao que tem sido divulgado por vários autores, consideramos o anverso destes exemplares, como sendo a face contendo o pentalfa ou sino saimão. Esta é a face que apresenta sempre o nome do soberano, parece-nos ser também claramente a pilha, elemento decisivo par a definição do anverso. O pentalfa entrelaça-se de tal forma que não tem principio, nem fim. Mais uma vez sendo uma figura simétrica, a colocação na posição correcta é dependente da legenda. Assim devemos procurar o nome do nosso rei e colocar a letra A o mais próximo das 12h, seguidamente poderá fazer-se a leitura. As legendas mais comuns para o anverso serão:
ALFONSIS
ALFONSVS

Quanto ao reverso, na face da cruz, será deveras mais fácil a obtenção da posição de leitura. Devemos simplesmente colocar a cruz ao alto e ler a legenda que normalmente começa às 12h. A legenda será quase sempre do tipo:
REX POR-TV

A leitura será feita circularmente ao longo do bordo da moeda, REX POR, acrescentando as duas letras que ladeiam a cruz T e V, formando REX PORTV. Usamos o hífen para separar este desfasamento, sendo assim teremos REX POR-TV.
Tem sido discutido se estes dois caracteres que ladeiam a cruz serão o T e o V ou o Alfa e Ómega gregos, optamos por não criar polémicas e fazer conforme mestre Batalha Reis lia estes numismas.
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Metades de dinheiros
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3- D. Sancho I ( O Povoador):

Antes de se partir a fundo para este novo reinado, convém esclarecer desde já e sem mais polémicas que não consideramos mealhas de dinheiros velhos. Vamos também incluir os dinheiros da cruz cravada neste reinado. Para mais, deverá procurar-se, entre outros autores, todo o trabalho desenvolvido pelo medievalista Laulo Baptista acerca destas duas polémicas, analisar a questão e tomar uma posição de livre consciência.

Não concordamos com a atribuição do anverso e do reverso a estas moedas feito por Alberto Gomes na sua obra “Moedas Portuguesas”, no entanto para não perturbar uma futura classificação por parte dos interessados, vamos, de modo a facilitar, seguir a disposição conforme o catálogo supracitado.

- Dinheiros da “cruz cravada”
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-Dinheiros das “estrelas”
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-Dinheiros das “espadas”
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Nos dinheiros vulgarmente designados como “espadas”, existem raras moedas com a legenda retrógrada.
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Metades de dinheiros
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4- D. Afonso II ( O Gordo):

-Dinheiros de “escudo amendoado”
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-Dinheiros de “escudo clássico”
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Analisando estes dinheiros de escudo clássico, rapidamente nos surge um conceito novo. A cruz equilateral cortando a legenda. Este conceito será muito importante no próximo reinado. Assim para a colocação desta face na posição correcta e posterior leitura, devemos colocar no 1º quadrante o par de letras PO e ler PO RT VG AL, no sentido dos ponteiros do relógio, a ordem será 1º-4º-3º-2º quadrante.

No anverso, basta colocar o escudo na posição correcta, a legenda normalmente abre com uma cruz “+” devemos ler a partir dessa cruz no sentido dos ponteiros do relógio.

O famoso e confuso “S” estilizado de Afonso II :
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Metades de dinheiros
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5- D. Sancho II ( O Capelo):

Este reinado divide-se em 2 grandes grupos tipológicos: Os dinheiros de cruz recruzetada, considerados os mais antigos e os de cruz lisa, provavelmente batidos durante a regência de Afonso, irmão de Sancho II, futuro Afonso III. Também neste reinado não concordamos com as atribuições ao reverso e anverso efectuadas por Alberto Gomes, mas de novo, para não destoar, iremos mantê-las de modo a facilitar a leitura e uma futura classificação através dessa obra.

O método que desenvolvemos ao longo de vários anos para ler com rapidez estes dinheiros é deveras simples, no entanto é necessário compreender bem todo o conceito, com este método poderá ler-se 10 ou mais moedas de Sancho II por minuto, sem qualquer dificuldade, sendo ideal por exemplo para vasculhar rapidamente um álbum numa feira à procura daquela variante que nos falta!

A declinação SANCII
O genitivo de possessividade em latim de SANCIVS será SANCII, em português "de Sancho". Não se deve portanto interpretar as diversas letras “I” como numeral de orde, mas sim como a declinação genitiva de SANCIVS. Salvo muito raras excepções, os dinheiros de cruz lisa encontram-se no tipo SANCII, enquanto que os de cruz recruzetada encontram-se no nominativo, tipo SANCIVS.

Anversos
Sendo assim, considera-se o anverso como a face contendo o escudo ou escudos.
A leitura deve ser iniciada colocando os escudos com o chefe para cima, conforme a técnica usada nos dinheiros novos. A partir daqui lê-se a moeda pela legenda que inicia cerca das 12h.
Note-se que em alguns casos existe simetria, assim a abertura da legenda deve ser considerada como SANCII REX ou SANCIVS REX, definindo o S, inicial do rei como inicio e o X como terminação da legenda.

Reversos
Tal como nos dinheiros de escudo clássico descritos anteriormente em Afonso II, a técnica de posicionamento para leitura da legenda, consiste em colocar o par PO no primeiro quadrante, sendo seguidamente no sentido dos ponteiros do relógio.

Dinheiros de cruz recruzetada:
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Dinheiros de cruz lisa:
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Dinheiros com escudetes em simetria:
Falta imagem

Exemplos de elementos cantonantes da cruz
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O ponto central
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Metades de dinheiros
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Referências:
[1] - Marques, Mário Gomes - Dinheiros novos, Casa de Sarmento
[2] - Gambetta, A. F. - História da moeda - Academia Portuguesa de História, Lisboa, 1978
[3] - Gomes, Alberto - Moedas Portuguesas - ANP, Lisboa, 2006
[4] - Vaz, Joaquim Ferraro - Livro das Moedas de Portugal, Volume I, Braga, 1969
[5] - Marques, Mário Gomes - História da Moeda Medieval Portuguesa - Instituto de Sintra, 1996
[6] - Reis, Pedro Batalha - Numária d'El-Rei Dom Afonso Henriques
[7] - http://www.dinheiro-dinheiros.blogspot.pt/" onclick="window.open(this.href);return false;

Nota: Algumas imagens foram retiradas de http://www.dinheiro-dinheiros.blogspot.pt/" onclick="window.open(this.href);return false; , caso algum proprietário de imagem não queira a foto aqui, por favor contacte-me de modo a que possa substituir as fotografias.



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Re: Guia prático para a leitura de dinheiros velhos

Mensagem por JPSAV » 27 jan 15 7:47:45

Mais um excelente trabalho!
Obrigado Rui!

JPSAV

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Re: Guia prático para a leitura de dinheiros velhos

Mensagem por Caetobriga » 27 jan 15 12:38:54

Eu até já fiz um PDF com esta informação. :hahaha: É fiz outro com os dinheiros novos. Os dois guias podiam ir parar a um caderno do Numismatas. :fiuuu:
Nenhum homem é melhor do que eu e nenhum homem é pior do que eu.

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Re: Guia prático para a leitura de dinheiros velhos

Mensagem por Bandadolopes » 27 jan 15 15:39:04

Útil informação e de excelência.

Caetobriga Escreveu:Eu até já fiz um PDF com esta informação. :hahaha: É fiz outro com os dinheiros novos. Os dois guias podiam ir parar a um caderno do Numismatas. :fiuuu:
:fiuuu: :fiuuu:
Cumprimentos,

Alberto Praça

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Re: Guia prático para a leitura de dinheiros velhos

Mensagem por numisiuris » 27 jan 15 16:35:03

Excelente!

Obrigado Rui!

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Re: Guia prático para a leitura de dinheiros velhos

Mensagem por Destrans » 27 jan 15 16:38:57

Obrigado Rui. Já tinhamos falado sobre esta parte do teu trabalho.
Desde os primeiro ano do Numismatas que se falava num guia de leitura, na altura encabeçado pelo Cardoso, que nunca se fez.

:brinde:

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Re: Guia prático para a leitura de dinheiros velhos

Mensagem por viriato64 » 27 jan 15 17:36:46

Excelente trabalho.
Parabéns.

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Re: Guia prático para a leitura de dinheiros velhos

Mensagem por vma » 27 jan 15 17:49:48

"A leitura será feita circularmente ao longo do bordo da moeda, REX POR, acrescentando as duas letras que ladeiam a cruz T e V, formando REX PORTV. Usamos o hífen para separar este desfasamento, sendo assim teremos REX POR-TV.
Tem sido discutido se estes dois caracteres que ladeiam a cruz serão o T e o V ou o Alfa e Ómega gregos, optamos por não criar polémicas e fazer conforme mestre Batalha Reis lia estes numismas."


Era preciso muita imaginação para ver o Alfa e o Omega... amigo Rui

:claps: :claps:
Vitor Almeida

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Re: Guia Prático para a leitura de Dinheiros Velhos

Mensagem por dmoura » 09 mai 19 19:07:37

Uma excelente ajuda! Haverá forma de se recuperarem as imagens? estão indisponíveis infelizmente...
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Re: Guia Prático para a leitura de Dinheiros Velhos

Mensagem por Destrans » 13 mai 19 10:31:11

A maioria das imagens vai desaparecendo com o tempo, por culpa dos sites de alojamento.
De qualquer forma este trabalho foi preservado em papel. Veja:
Imagem Guia Pratico para a leitura dos Dinheiros Velhos (*)
Imagem Guia Pratico para a leitura dos Dinheiros Novos (*)

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Re: Guia Prático para a leitura de Dinheiros Velhos

Mensagem por dmoura » 20 mai 19 13:07:51

Destrans Escreveu:
13 mai 19 10:31:11
A maioria das imagens vai desaparecendo com o tempo, por culpa dos sites de alojamento.
De qualquer forma este trabalho foi preservado em papel. Veja:
Imagem Guia Pratico para a leitura dos Dinheiros Velhos (*)
Imagem Guia Pratico para a leitura dos Dinheiros Novos (*)
Desde já muito obrigado pela ajuda e disponibilidade, mas os links dizem que o tópico não existe :(
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