Caro Trigueiros, agradeço imenso o desafio, mas não vou poder coordenar, o fórum é um espaço de discussão, não se pode obrigar os colegas a participar e muito menos a cumprir prazos, está fora de questão! Participa quem quiser e quem puder com as armas que tem, dentro das minhas possibilidades também vou colaborar no tempo livre.
Começo, introduzindo dois textos de Garcia de Resende que podem ajudar no futuro.
O primeiro texto referente à numária de João II e o seguinte referente ao uso do Justo como moeda de conta num empréstimo pedido pelo Príncipe Perfeito.
Vida e Feitos D' El-Rey Dom João Segundo/LVII Escreveu:
Em Beja teve el-rey conselho sobre as moedas novas que avia de fazer, e ainda nam tinha feytas, pera as quaes anovou e ordenou algũas cousas no real escudo de suas armas. E a primeira mudança, foy que tirou do dito escudo a cruz verde da hordem d' Avis, que nelle por grande erro como parte d' armas substanciaes andava jaa encorporada, porque el-rey Dom Joam o primeyro seu visavoo ante que devidamente e por authoridade apostolica se yntitulasse rey dos reynos de Portugal, e do Algarve era mestre d' Avis. E depois de ser rey tomou por devaçam da hordem assentar o escudo das armas de Portugal sobre a cruz verde com as pontas dela fora do escudo na bordadura, como ainda em suas obras e muy excelente sepultura no Moesteyro da Batalha oje em dia se vee. E depois por descuydo ou pouco aviso dos reys d' armas andou assi muyto tempo em vida d' el-rey Dom Duarte, e d' el-rey Dom Afonso; e por tirar isto que parecia mal, el-rey a mandou entam tirar de todo fora. E assi mandou mudar os cinco escudos de dentro, porque os dous das ilhargas andavam atravessados com as pontas debayxo pera o do meyo que parecia cousa de quebra, e os pôs todos dereytos com as pontas pera baixo da maneira em que agora andam.
E neste anno e tempo se intitulou el-rey primeiramente em seu titulo senhor de Guinee como agora anda.
E assi fez neste ãno de oytenta e cinco no mes de Junho as primeiras suas moedas, s.: moeda d' ouro, a que chamou justo e era de ley de vinte e dous quilates e de peso de seiscentos reys, e tinha de hũa parte o escudo real dereyto com letra derredor do nome e titulo d' el-rey, e da outra parte el-rey armado de todas armas assentado em cadeira real e o ceptro na mão, e a letra dezia: Justus sicut palma florebit. E assi mandou fazer outra moeda d' ouro que se chamava espadim, que era da ley dos justos e da metade do preço e peso delles que era trezentos reaes e tinha de hũa parte o escudo real com o nome e titulo d' el-rey, e da outra hũa mão com hũa espada nua com a ponta pera cima e por letra derredor: Dominus protector vitae meae a quo trepidabo?; e estes espadins mandou fazer deste nome por devaçam e lembrança da conquista d' Africa que sempre com a espada na mão se fez e prossegue por honrra e exalçamento da fee de Jesu Christo. Fez tambem vintens e meos vintens de prata e cincos de ley de onze dinheyros, e de preço de vinte reaes, e de dez, e de cinco, e fez outros espadins de cobre da feyçam e grandura dos de ouro e eram prateados de preço de quatro reaes. E assi deu novo crecimento aa valia da prata que mandou geralmente que valesse o marco dahi em diante a dous mil e duzentos e oytenta reaes e a este preço se fezeram os ditos vintens. E assi se lavravam em seu tempo mais que outra nenhũa moeda os cruzados da propia ley e peso que ora sam, porém valiam a trezentos e noventa reaes cada hum; que os dez reaes de mais com que ora tem valia de quatrocentos, el-rey Dom Manuel que sancta gloria aja lhos acrecentou na valia no anno de quinhentos e dezassete. E em tempo d' el-rey valendo a trezentos e noventa eram tantos em todo o reyno que davam por cambar hum cruzado cinco reaes e ficavam em valia de trezentos e oitenta e cinco, e avia no reyno em todalas cidades e villas principaes cambadores que ganhavam muito nisso, os quaes agora nam há porque dam pollos cruzados quem os há mester a quatrocentos e dez reaes.
Vida e Feitos D' El-Rey Dom João Segundo/LXXXIII Escreveu:No tempo do socorro da Graciosa por se el-rey achar em Tavilla sem dinheiro, por lhe tardar de Lixboa da Casa da Mina onde por ele tinha mandado, e comprir fazer-se logo prestes hum navio pera hir com hum recado, mandou dizer a Pero Pantoja que lhe gradeceria mandar-lhe emprestar por sete ou oyto dias mil justos, que eram seiscentos mil reis; os quaes lhe Pero Pantoja logo mandou e lhe ofereceo muito mais que tinha, pedindo-lhe muito por merce que o nam tomasse doutrem senam delle pois quanto tinha sua alteza lho dera, o que lhe el-rey muito gradeceo. E dahi a cinco dias veo o dinhero que el-rey esperava, e mandou logo dar a Pero Pantoja setecentos mil reis. E elle os nam quis tomar e se veo logo agravar a el-rey dizendo que pois que servia sua alteza com tam verdadeyra vontade, e tinha pera o servir muito de que lhe elle fezera merce, que como lhe dava ganho do seu dinheyro em cinco dias que o tevera, que nam se faria mais a hum mercador cobiçoso. E el-rey lhe respondeo: "Ora pois que vos agravais, tomay oitocentos mil reais, e se mais falais palavra tomareis novecentos mil"; e mandou-lhe dar oytocentos mil reis, emprestando-lhe seyscentos mil; que desta maneira agradecia os serviços que lhe faziam, e tambem por ysso quando lhe compria dinheyro sem interesses lho emprestavam.
Testamento de João II Escreveu:as fazem e hedificão e consolão os próximos mando que se despedão
mil e quynhentos e vinte Justos ao uzo da moeda que ora corre de
trinta e oyto peças em marco de ley de vinte e dous quirates em esta
maneira segue S. a quarenta e hua órfaãs pera ajuda de seu
casamento caa hus dellas vinte justos e pera ajuda de tirarem
quorenta e hum cativos portugueses os mais desemperados que se
acharem outros vinte justos
À época do lavramento do Justo, o Cruzado devia cotar entre 380 e 390 reais brancos. Em 1480, o marco da prata valia 2000 reais brancos, em 1484 valia 2280 reais brancos e 1494 2285 reais brancos [Pimenta Ferro].
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Com base na documentação antiga e a nível teórico, penso que seria uma mais valia discutirem-se os seguintes dados que podem ajudar a trazer prova:
- Em que ano ao certo se começou a lavrar o Justo ?
- Qual o peso teórico em grãos e grama e qual o marco usado, marco de Colónia?
- Qual a lei? 11 dinheiros? 916,(6)/1000?
- A quantos reais brancos equivale o Justo? Houve desvalorização abrupta?
Quanto à casa do Porto:
- Que moedas lavrou a casa do Porto no período em que foi lavrado o Justo?
- Que motivo teórico apoia o lavramento do Justo na casa do Porto?
- Teria esta casa dotação técnica para esta moeda?
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Não aparecem exemplares do mesmo par de cunhos, nem sequer do mesmo cunho, creio que todos são diferentes, o que estende a emissão de Lisboa por uns bons milhares de Justos. A ordenação está feita de acordo com o numeral, primeiro o Romano (II), depois o Árabe.
De notar, onde todos os autores têm lido DNSQ, parece-me ler DNSOB "Senhor Soberano", com várias letras em nexo. De qualquer forma na maioria das leituras, fica a leitura clássica.
Isto é importante, porque até agora todos os Justos são do tipo D: ou DNSOB com letra ornamentada, essa do Porto é DNS, não encontrei outras moedas de ouro de João II com a legenda DNS, nem cruzados, nem Justo nem meio Justo
O mesmo acontece para o meio Justo, D: ou DNSOB ornamentado, as legendas DNS que aparecem no Alberto Gomes estão mal lidas, basta ver as fotos. Como o meio Justo está marcado com a letra monetária "L", parece que esta ornamentação é característica de Lisboa. O Justo achado na casa do Infante, terá sido batido em Lisboa.
Após a definição teórica, usando muitas imagens da numária do Porto lá batida neste reinado e também todas as imagens de Justos possíveis e ouro no geral creio que podemos chegar a conclusões associadas à matriz estilística.
Mal tenha oportunidade vou procurar mais imagens por entre os livros e catálogos.
O apelo seria mesmo à participação, toda e qualquer ideia, ou imagem é muito importante!